Reportagem especial
A cidade de São Francisco do Guaporé, no interior de Rondônia, vive um momento de forte insatisfação popular. Conhecida no passado como a “capital do Vale do Guaporé”, o município hoje enfrenta denúncias de abandono na infraestrutura, problemas graves na saúde pública e uma investigação milionária envolvendo recursos da saúde.
Moradores afirmam que, em pouco mais de um ano da atual gestão do prefeito José Wellington, do Partido Liberal (PL), a cidade teria sofrido um retrocesso significativo. Nas redes sociais e nas ruas, a frase mais repetida pelos moradores é: “São Francisco voltou dez anos no tempo”.

Ruas esburacadas e “remendos” de cimento em São Francisco do Guaporé

Um dos problemas mais visíveis está nas ruas da cidade. Em diversos bairros — inclusive no centro — motoristas e moradores convivem diariamente com buracos.

Segundo denúncias da população, em vez de utilizar massa asfáltica adequada para manutenção das vias, alguns reparos estariam sendo feitos com cimento.
Moradores ironizam a situação dizendo que “estão fazendo calçada no meio do asfalto”. Técnicos alertam que o uso de cimento sobre pavimento asfáltico pode causar infiltração e ampliar ainda mais os buracos com o tempo.
Falta de iluminação e sensação de abandono em São Francisco do Guaporé
Outro problema frequente é a falta de iluminação pública em várias ruas da cidade. Moradores relatam que alguns bairros enfrentam verdadeiros “apagões” durante a noite, aumentando a sensação de insegurança.
As reclamações sobre infraestrutura se acumulam e reforçam o sentimento de abandono no município.
Saúde com falta de medicamentos
A saúde pública também está no centro das críticas. De acordo com relatos de moradores, unidades básicas de saúde enfrentam falta de medicamentos.
Além disso, o município não possui hospital municipal nem Unidade de Pronto Atendimento (UPA), o que obriga pacientes a buscar atendimento em cidades vizinhas.
A comparação mais frequente feita pela população é com o município de Seringueiras, que é menor e possui arrecadação inferior, mas conta com hospital municipal que realiza diversos procedimentos cirúrgicos, inclusive cirurgias ortopédicas realizadas semanalmente.
Investigação de R$ 13 milhões na saúde
A situação ganhou ainda mais gravidade após a revelação de uma investigação envolvendo R$ 13 milhões da saúde municipal.
O caso está sendo investigado pela Polícia Civil de Rondônia, pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (DRACO) e pela Polícia Federal do Brasil, já que parte dos recursos seria de origem federal.
O valor investigado é considerado extremamente alto para o município:
-
corresponde a cerca de 10% do orçamento anual da cidade, estimado em aproximadamente R$ 130 milhões;
-
e representa cerca de 50% dos recursos da saúde municipal.
Há suspeitas de que parte do dinheiro possa ter sido perdida em apostas online, incluindo o jogo conhecido como “Tigrinho”. As autoridades ainda investigam essa possibilidade.
Câmara cria CPI, mas população desconfia
Diante da repercussão do caso, a Câmara Municipal de São Francisco do Guaporé instalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o possível desvio.
No entanto, a iniciativa já nasce cercada de desconfiança por parte da população.
O presidente da CPI é o vereador Osias, do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), considerado aliado político do prefeito. Moradores afirmam que o vereador costuma defender a administração municipal em grupos de WhatsApp da cidade.
Já o relator da comissão é o vereador Elias Dutinin, também do Partido Liberal, mesmo partido do prefeito.
Para parte da população, o fato de vereadores da base política do prefeito conduzirem a investigação levanta dúvidas sobre a imparcialidade da comissão.
Prefeitura recebeu caixa milionário da gestão anterior
Outro ponto frequentemente citado pelos moradores envolve a situação financeira deixada pela gestão anterior.
Segundo relatos políticos locais, o ex-prefeito Tinoco teria deixado cerca de R$ 27 milhões em caixa ao final de seu mandato.
Mesmo com esse cenário financeiro, moradores afirmam que a atual gestão não estaria conseguindo manter o nível de serviços e obras existentes anteriormente.
Usina de asfalto parada há mais de um ano
Outro exemplo apontado como símbolo de falta de gestão envolve um recurso destinado para infraestrutura.
Segundo informações locais, a prefeitura possui R$ 2,1 milhões em conta para a compra de uma usina de asfalto, recurso destinado pelo ex-deputado Lebrão.
No entanto, mais de um ano após o recurso estar disponível, a prefeitura ainda não teria concluído o processo de licitação para adquirir o equipamento.
Enquanto isso, os reparos nas ruas continuam sendo feitos de forma improvisada com cimento, o que tem gerado críticas e questionamentos da população.
População cobra respostas
Diante da soma de problemas — buracos nas ruas, falta de iluminação, crise na saúde e investigação milionária — cresce a pressão popular por respostas.
Moradores aguardam o avanço das investigações e cobram atuação das autoridades, incluindo o Ministério Público do Estado de Rondônia.
Para muitos moradores, o sentimento predominante é de frustração. A cidade que já foi considerada referência na região do Vale do Guaporé hoje enfrenta um cenário que muitos descrevem como abandono e falta de gestão.










Deixe um comentário